Passaremos a discutir um dos principais temas do livro do nosso querido egrégio reformador, Calvino, A Predestinação.
Para um amplo conceito da predestinação eu escolhi aquele que se encontra no “Trinta e Nove Artigos” da Igreja Anglicana (Church of England), que diz:
“A predestinação para a Vida é o eterno propósito de Deus, pelo qual (antes de lançados os fundamentos do mundo) tem constantemente decretado por seu conselho a nós oculto, livrar da maldição e condenação os que elegeu em Cristo dentre o gênero humano, e conduzi-los por Cristo à salvação eterna, como vasos feitos para honra. Por isso os que dotados de tão excelente benefício de Deus são chamados segundo o propósito de Deus, por seu Espírito operando no tempo devido; pela graça obedecem a vocação, são feitos filhos de Deus por adoção; são criados conforme a imagem de seu Unigênito Filho Jesus Cristo; vivem religiosamente em boas obras, e enfim, pela misericórdia de Deus, à felicidade eterna.
Assim como a pia condenação da predestinação, e da nossa Eleição em Cristo, é cheia de um doce, suave e inexplicável conforto para as pessoas devotar, e os que sentem em si mesmos a operação do Espírito de Cristo, mortificando as obras da carne, e os seus membros terrenos, e elevando o seu pensamento às coisas altas e celestiais, não só porque muito estabelece e confirma a sua fé na salvação eterna que hão de gozar por meio de Cristo, mas por que de modo veemente acende o seu amor para com Deus; assim para as pessoas curiosas e carnais, destituídas do Espírito de Cristo, o ter de contínuo diante dos seus olhos a sentença da predestinação de Deus é um princípio muitíssimo perigoso, por onde o Diabo as arrasta ao desespero ou a que vivam na iniquidade dos seres mais impuros, de maneira não menos perigosa que o desespero.
      Além disso, devemos receber as promessas de Deus do modo que nos são geralmente propostas nas Escrituras Sagradas e seguir em nossas obras a Vontade de Deus, que nos é expressamente declarada na sua Palavra”.
ARTIGOS DA RELIGIÃO CRISTÃ[1] (TRINTA E NOVE ARTIGOS)
(1571: Igreja Anglicana)
A ideia que permeia esse assunto é a seguinte:
Deus tem poder infinito (é Onipotente), tem sabedoria infinita (é Onisciente), nada pode existir sem a autorização d’Ele (Is 43. 13; Jó. 42. 2) e não há nada que Ele não saiba, nem no passado nem no futuro. Por tanto, antes de nascermos Deus já sabe o que irá acontecer conosco, pois Ele próprio determinou (Jr 1. 5; Is 49. 5; Lc 1. 15; Gl 1. 15 - 16). Entendemos, assim, que antes de nascermos nosso destino já estava determinado por Deus.

O arminianismo, negando a absoluta soberania de Deus, sustentava a doutrina da fé preveniente, supostamente firmada em Rm 8. 29, especificamente na afirmação:

Porquanto aos que de antemão conheceu. O texto todo (Rm 8. 29 - 30) em nada favorece o “prescientismo”. No fundo, o arminiano quer dizer:Deus elegeu para salvação os que ele sabia, desde a eternidade, que haveriam de crer no Salvador. Entendiam, porém, que a fé não procede da graça, mas da capacidade humana de crer ou descrer. Desta afirmação arminiana deduzimos: 1- Deus não é soberano sobre o homem, sua imagem. Este decide o seu destino tanto para o tempo como para a eternidade. 2- A salvação ou a perdição vincula-se restritiva e exclusivamente à decisão racional daqueles que, no curso da vida, optam pela fé ou pela incredulidade. 3- Por que Deus sabia, desde a eternidade, que alguns não creriam? Tal rejeição foi preordenada previsivelmente? A descrença prevista e a consequente perdição não “cheiram” fatalidade inconsequente? 4- Se Deus sabia, antes da criação, que alguns de suas criaturas humanas, pelo mau uso ou atitude inconsciente da vontade livre “não creriam”, por que não os livrou de semelhante “descrença presciente”? 5- Deus, segundo Rm 8. 29, 30, “conhecia” o homem que criaria, o ser constante de seus eternos planos, e preconizou as liberdades gerais, a consciência religiosa e os direitos de opção que lhe concederia, inclusive os diversos dons com os quais lhe dotaria tanto para suas funções operativas e criativas no mundo, como para sua expressividade adoradora e missionária. O homem é instrumento da vontade de Deus; não este, instrumento dos desejos humanos. 6- A fé preveniente do homem livre condicionaria o ato eletivo de Deus. Não podemos imaginar, calvinisticamente, um Deus, soberano Criador, sendo condicionado pela fé da criatura.
A crença arminiana de que Deus nos escolhe porque sabe de antemão que o escolheremos concebe o absurdo de que: os eternamente escolhidos são aqueles que escolhem Deus, não os que Deus escolheu. Neste esquema doutrinário, o antropocentrismo é enfaticamente acentuado em detrimento do teocentrismo. Desta maneira, a declaração de Cristo de que muitos são chamados, mas poucos escolhidos (Mt 22. 14) ficaria assim: Muitos são chamados, mas somente os “escolhedores” pela fé prescientemente eterna são escolhidos. Os que, pela incredulidade presciente, recusam o chamado, estes, prescientemente, rejeitam a vocação, para eles, ineficaz. Tudo isso é inconcebível à luz da doutrina da absoluta soberania de Deus[2].

Tente analisar essa passagem da Escritura: “… todos os dias determinados para mim foram escritos no teu livro antes de qualquer deles existir” (Sl 139. 16 b). Dessa vez gostaria que você mesmo tirasse suas conclusões.
Dentro desse tema sobre Eleição eu preparei, além do tema descrito acima, este outro que também é muito pertinente ao assunto:


CARACTERÍSTICAS DOS ELEITOS


Eu elaborei este subtítulo baseado em alguns textos bíblicos que me afirmam que o povo de Deus difere do povo mundano em algumas características (Ml 3. 18; Mt 7. 15 – 23; At 15. 23 - 29). Certamente existem outras, essas, porém, são as principais.




Vive Em Santidade


Como nosso primeiro tema sobre Características dos Eleitos, falaremos sobre Santificação (gr. hagiasmos - Sagiasmos). Que eu não poderia deixar de abordar, já que essa é uma questão de vital importância para a nossa salvação[3]. Na verdade antes de falar qualquer outra cousa sobre a santificação eu lhe digo: Não existem eleitos sem SANTIFICAÇÃO, por que “sem santificação ninguém verá o Senhor”. Ser santo é viver, continuamente, esquivando-se do pecado, ou daquilo que o leve a pecar. Mas acima de todas as coisas a santidade é a prioridade de Deus para seus seguidores (Ef 4. 21 – 24).

O Catecismo Maior de Westminster descreve a santificação como “a obra da graça de Deus pela qual, os que Deus escolheu antes da fundação do mundo para serem santos, são, nessa vida, pela poderosa operação de seu Espírito, que aplica a morte e a ressurreição de Cristo, renovados no homem interior, segundo a imagem de Deus, tendo os germens do arrependimento que conduz à vida, e de todas as outras graças salvadoras implantadas no coração deles, e tendo essas graças de tal forma excitadas, aumentadas e fortalecidas, que eles morrem cada vez mais para o pecado e ressuscitam para a novidade de vida[4]”.

Essa é a visão que os “Puritanos” (termo pejorativo, por que na verdade eles eram Não Conformistas) tinham gravada em seus corações. Em toda sua vida eles queriam colocar a marca: “Santidade ao SENHOR” (Êx 28. 36; 39. 30). Diziam —

“Santidade ao SENHOR em toda a vida
humana, e nada menos que isso, é o que
Deus espera de Seu povo”.




Fig. 1 - Os Puritanos, Assembleia de Westminster.

Ao pesquisar sobre os “Puritanos”, você vai me dizer que eles foram de certa forma, extremistas nos seus modos de observar algumas questões religiosas. Sim, não discordo, entretanto tratando-se da santificação, o  sermos ortodoxos, constitui-se um grande benefício. Pois pessoas volúveis, flexíveis, ou adeptas do conformismo, são facilmente levadas por qualquer corrente de doutrina. Mas continuando o assunto, assim como os “Puritanos”, eu posso dizer que aqueles que pensam ser escolhidos, mas vivem uma vida deplorável, sórdida, repulsiva, na prática constante, viciosa e deliberada do pecado, estão enganados e provavelmente perecerão no inferno. Pois entendemos no estudo sobre Teodiceia que o Senhor exercerá a sua justiça sobre toda a impureza do homem (Rm 2. 1 – 6). Jonathan Edwards disse de forma muito clara:

“Aqueles que não querem viver vidas piedosas descobrem, por si mesmos, que não são eleitos; aqueles que querem viver vidas piedosas descobrirão, por si mesmos, que são eleitos[5]”.

     Outro aspecto da santificação é que é um processo contínuo, para ser mais especifico, Wayne Grudem[6] aponta três estágios para essa continuidade.

      1.   A santificação tem um começo definido na regeneração.
      2.   A santificação aumenta por toda a vida.
      3.   A santificação se completará na morte (em nossa alma) e quando o       Senhor retornar (em nosso corpo).

Observe a figura a seguir, que ilustra bem essa ideia.




Fig. 2 – O Processo da Santificação.





- Primeiro degral da escada indica a Conversão – Antes disso éramos escravos do pecado (Rm 6. 17 – 23).
- Segundo degral da escada indica a Vida Cristã – Um crescimento em Santidade (Hb 12. 14).
- Terceiro degral da escada indica a Morte – Após a morte alcançaremos perfeita Santidade (1 Co 15. 49).

Não obstante, a maioria dos cristãos encontram-se relutantes no tocante a essa tão importante questão. Mas Deus continua a dizer “Sejam santos por que Eu Sou Yahweh Qedhosh, Deus santo, Deus de santidade” (1 Pe 3. 16). Eu oro para que a santidade volte a ser uma marca, pela qual a Igreja seja reconhecida. Que possamos erguer aquela mesma bandeira: “Santidade ao SENHOR”. E que, assim como os “Puritanos”, sejamos decisivos naquilo em que cremos. Existe uma só fé, um só Senhor, um só batismo… (Ef 4. 3 - 6) – que me chamem de fanático – mas precisamos aferir o nosso pensamento, nossas atitudes, nossos atos, com os ditames da Palavra de Deus, que são terminantes, peremptórios, finais. Talvez você me acuse de ser intolerante, mas antes que faça isso, pondere com muito cuidado nessa parte da Escritura Sagrada: “a ira de Deus é revelada dos Céus contra toda impiedade e injustiça dos homens…” (Rm 1. 18).

 Sabe o que isso significa? Que eu não sou o único intolerante nessa história! Deus também não tolera a impiedade meu querido, em breve Ele exercerá Sua justiça.

Ama o Próximo


Pelo que pude observar, este tema é muito pouco comentado no meio dos cristãos reformados. Talvez uma das razões seja a má interpretação da palavra.

No Velho Testamento é a expressão mais profunda de intimidade nas relações com Deus e com o próximo[7]. O significado de amor, como ágape, no Novo Testamento está ligado ao significado do Velho Testamento, embora o amor também seja, no grego, phileo (phileo), que significa uma profunda amizade pelo outro.

É importante que vocês saibam, também, que o amor descrito nas Escrituras Sagradas, não refere-se ao nosso ideal do sentimento descrito como “amor”. Por que o amor nunca é um sentimento, um desejo, mas uma decisão de agir em favor do outro, como quando Paulo, escrevendo aos Romanos diz: “Deus dá prova do Seu amor para conosco, em que…, Cristo morreu por nós” (Rm 5. 8). Se este conceito estivesse acoplado à mente e ao coração dos cristãos, dificilmente veríamos essa imagem de Deus como um ser tão melancólico por conta do desinteresse dos homens.

Então, o que devemos crer relacionado a amor ao próximo?
Ora, nada além do que o Apóstolo Paulo nos descreveu: “… como povo escolhido de Deus, santo e amado, revistam-se de profunda compaixão, bondade, humildade, mansidão e paciência. Suportem-se uns aos outros e perdoem as queixas que tiverem uns contra os outros. Perdoem como o Senhor lhes perdoou. Acima de tudo, porém, revistam-se do amor, que é o elo perfeito” (Cl 3. 12 - 14).

O amor, ao qual o Apóstolo se refere (v. 14), trata-se do amor fraternal – Do grego philadelphia (philadelphia). É o amor daqueles que estão reunidos como comunidade fraterna, cujo compromisso é além do individual, pelo esforço de um bem comunitário.

Aqui, nós que professamos a mesma fé em Cristo, somos exortados a estarmos juntos em amor fraternal, aquele que não visa apenas seu próprio interesse, mas, também, o do próximo, guardando o mandamento de Amar ao Próximo Como a Si Mesmo, descrito pelo Senhor em João 13. 34 - 35: “Um novo mandamento lhes dou: amem-se uns aos outros. Como eu os amei, vocês devem amar-se uns aos outros. Com isso todos saberão que vocês são meus discípulos, se vocês se amarem uns aos outros”. Observe que esse mandamento já existia (Lv 19. 18), entretanto Jesus disse “um novo mandamento…”. Isso é interessante por que, acredito eu, que a maioria dos judeus relacionavam a palavra “próximo” aos vizinhos – aquele que está perto, ou pertencente à comunidade judaica – só que Jesus traz um novo significado para o mandamento: no sentido aplicado por Cristo, a palavra tem uma extensão muito mais profunda, uma vez que qualquer ser humano pode ser considerado o próximo de outro, independente da posição social, riqueza ou concepção teológica. A parábola do bom samaritano ilustra bem esse conceito (Lc 10. 25 – 37). Você pode observar esse sentimento altruísta em Atos 4. 32 – 37.

Então é necessário que nós vivamos de acordo com esses princípios. Os verdadeiros eleitos de Deus vivem em profunda comunhão, eu jamais poderei ser eleito, verdadeiramente eleito por Deus, se eu cultivo o rancor, mágoa, ou até mesmo o ódio contra qualquer pessoa (1 Jo 4. 7 – 21). Tais sentimentos são totalmente contrários ao caráter moral de Deus, Ele, portanto tem aversão a esses “sentimentos”.

Se ainda ficou algum pondo obscuro gostaria de ler com você um pequeno texto para esclarecer e finalizar esse assunto:



Mateus 25. 31 – 46:






31 “Quando o Filho do homem vier em sua glória, com todos os anjos, assentar-se-á em seu trono na glória celestial. 32 Todas as nações serão reunidas diante dele, e ele separará umas das outras como o pastor separa as ovelhas dos bodes. 33 E colocará as ovelhas à sua direita e os bodes à sua esquerda.

34 “Então o Rei dirá aos que estiverem à sua direita: ‘venham, benditos de meu pai! Recebam como herança o Reino que lhes foi preparado desde a criação do mundo. 35 Pois eu tive fome, e vocês me deram de comer; tive sede e vocês me deram de beber; fui estrangeiro, e vocês me acolheram; 36 necessitei de roupas, e vocês me vestiram; estive enfermo, e vocês cuidaram de mim; estive preso, e vocês me visitaram’.

37 “Então os justos lhe responderão: ‘Senhor, quando te vimos com fome e te demos de comer, ou com sede e te demos de beber? 38 Quando te vimos como estrangeiro e te acolhemos, ou necessitado de roupas e te vestimos? 39 Quando te vimos enfermo ou preso e fomos te visitar?’

40 “O Rei responderá: ‘Digo-lhes a verdade: O que vocês fizeram a algum dos meus menores irmãos, a mim o fizeram’.

41 “Então ele dirá aos que estiverem à sua esquerda: ‘Malditos, apartem-se de mim para o fogo eterno, preparado para o Diabo e os seus anjos. 42 Pois eu tive fome, e vocês não me deram de comer; tive sede, e nada me deram para beber; 43 fui estrangeiro, e vocês não me acolheram; necessitei de roupas, e vocês não me vestiram; estive enfermo e preso, e vocês não me visitaram’.

44 “Eles também responderão: ‘Senhor, quando te vimos com fome ou com sede ou estrangeiro ou necessitado de roupas ou enfermo ou preso, e não te ajudamos?’.

45 “Ele responderá: ‘Digo-lhes a verdade: O que vocês deixaram de fazer a alguns destes mais pequeninos, também a mim o deixaram de fazê-lo’.

46 “E estes irão para o castigo eterno, mas os justos para a vida eterna”.


(NVI)



[1] - Para ver os 39 artigos acesse a sessão Confissões no menu deste blog.
[2] - Confissão de Fé de Westminster – Predestinação Presciente
[3] - (cf.): 1 Ts 5. 23; Hb 12. 14; 1 Pe 1. 2, 13 - 16.
[4] - O Catecismo Maior de Westminster, p. 79 (Copyright © 2002 de Editora Cultura Cristã).
[5] - EDWARDS, Jonathan - Miscellaneous Remarks Concerning Satisfaction for sin, in Banner, 2:569.
[6] - GRUDEM, Wayne - Teologia Sistemática, cap. 38 – A Doutrina da Aplicação da Redenção – Santificação [Tornar-se Semelhante a Cristo]: p. 622 – 628, (Copyright © 2012 de Vida Nova).
[7] -  (cf.): Dt 7. 7 – 8; Jr 31. 3.




Maique Borges


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Maique de Souza Borges, é um teólogo autodidata, estudante e amante da música sacra. Com o intuito de proclamar as Boas Novas, e convidar os brasileiros para voltarem à centralidade da Palavra de Deus, criou o blog Cooperadores do Evangelho. É casado com Poliana Borges e é o pai do Miguel.