Esse foi um dos temas que tratamos, exaustivamente, na última revista “Vivendo a Fé”, sob o título Vocação. Recomendamos o seu uso a todas as igrejas, pois julgamos oportuno, dadas as difíceis crises de várias que temos vivido em nossas igrejas locais.
Toda vez que encontrarmos na Bíblia a palavra “chamado”, fazendo menção específica ao serviço requerido por Deus, no mesmo contexto estará inserida a palavra vocação. Neste sentido, chamado e vocação se equivalem. Por exemplo, para chamar alguém, normalmente usamos nossa voz para pronunciar o nome do escolhido; e, no mesmo sentido, temos a palavra “vocação” que, em sua própria raiz, vem da expressão latina “vocare”, que significa falar, emitir som, voz ou “chamar por meio da emissão de voz, vocação”. Na Sagrada Escritura, estas expressões dão sentido ao ato soberano de Deus de chamar/vocacionar pessoas para um propósito específico.
No Novo Testamento, o apóstolo Paulo ilustra isso muito bem ao se apresentar como apóstolo “pela vontade de Deus” (2Co 1.1: “Paulo, apóstolo de Jesus Cristo pela vontade de Deus...”; Gl 1.1: “Paulo, apóstolo não da parte dos homens, nem por meio de um homem, mas da parte de Jesus Cristo e de Deus Pai, que o ressuscitou dos mortos...”; Ef 1.1: “Paulo, apóstolo de Jesus Cristo pela vontade de Deus...”; Cl 1.1: “Paulo, apóstolo de Jesus Cristo pela vontade de Deus...”). As duas expressões – “chamado a ser apóstolo” e “apóstolo pela vontade” – se correspondem e chegam à mesma conclusão: Paulo não se fez apóstolo; foi feito. E isso por um desígnio misterioso – desde o seio materno (Gl 1.15) – de modo que sua vocação apostólica é fundamentada pelo mesmo exemplo que encontramos no Antigo Testamento (por exemplo, em Jeremias 1.5).
A palavra “radical” é um adjetivo popular, bem conhecido e pode ser aplicado em quase todos os sentidos da linguagem e das ações humanas. Esta palavra possui dois gêneros, que são raiz e essência. Raiz dá o sentido de origem e essência dá o sentido de matéria prima ou mesmo “aquilo do que constitui alguma coisa”. Nesse sentido, uma ação radical é aquela que não é moderada, que não sofre influência externa, por tratar-se de ação de mão única, inflexível. De acordo com a literatura, sobretudo no estudo da linguagem, a palavra radical dá o sentido de raiz de onde origina aquilo que chamamos de núcleo semântico. Por exemplo, quando falamos algo como “elucidar”, temos como raiz a palavra luz e com isso queremos dizer algo do tipo “esclarecer, tornar claro, compreensível”.
A palavra radical, na matemática, exerce a função de “símbolo de potência”. Na política, dá o sentido de regime totalitário ou mesmo ditador. Na relação familiar, podemos citar o exemplo das figuras do “pai autoritário, marido tirano”. Na religião, podemos pensar numa espiritualidade do tipo fundamentalista ou ainda em movimentos sectários, exclusivistas.
Portanto, de modo proposital, é deste contexto que extraímos a palavra “radical” para estudarmos, bíblica e teologicamente, o conceito de vocação pastoral. A nossa intenção ao usarmos esta palavra é a de excluir todos os sinônimos equivocados que foram falsamente inseridos no conceito de vocação pastoral. Com isso, queremos dizer que a nossa tarefa, principalmente dado o contexto em que estamos vivendo em nosso país quanto à espiritualidade “evangélica”, é tirar tudo aquilo que obscurece o sentido bíblico da vocação pastoral.
Desse modo, precisamos dizer que a palavra radical encontra sua “raiz” e sua “essência” já nas primeiras páginas da Bíblia, quando o assunto é vocação. Assim, solicitamos ao leitor que faça atenciosa leitura dos textos: Gênesis 6.11-14, 12.1-9, Êxodo 3.1-18, 1 Samuel 16.1-13, Jonas 1.1-15, Jeremias 1.1-10, Mateus 4.18-22. Estas passagens bíblicas indicam exatamente a raiz e a essência da radicalidade da vocação pastoral. Para dizer melhor, não aparece diretamente a palavra “radical” nessas passagens. Contudo, dada a ordem direta de Deus, entendemos com clareza que a vocação pastoral tem sua raiz e sua essência exclusivamente no próprio Deus. Teologicamente denominamos isso de “Soberania de Deus”.




Rev. Adilson Souza Filho, Pastor da IPI de Vila Moinho Velho, São Paulo, SP, e Secretário de Educação Cristã da IPIB

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