Expiação limitada em João Calvino (1509 - 1564 d.C)
O que Calvino ensinava com respeito à extensão da expiação, Robert Peterson observa, “tem sido matéria de considerável debate” (Robert A. Peterson, “Calvin on Christ’s Saving Work”, em Theological Guide to Calvin’s Institutes, Eds. David W. Hall and Peter A. Lillback. Phillipsburg, N.J.: P&R, 2008, 246). Alguns estudiosos afirmam que Calvino ensinou uma expiação ilimitada (James B. Torrance, “The Incarnation and Limited Atonement, EQ, 55, 1983, 82-94; M. Charles Bell, Calvin and Scottish Theology the Doctrine of Assurance. Edinburgh: Handsel, 1985, 13-40; [Curt D.] Daniel, op. cit. [“HyperCalvinism and John Gill”. University of Edinburgh: PhD thesis, 1983], 777-829). Outros asseveram que ele apresenta uma redenção particular (Paul Helm, Calvin and the Calvinists. Edinburgh, Banner of Truth, 1982; “Calvin and the Covenants: Unity and Continuity”, EQ, 55, 1983, 65-81; W. Robert Godfrey, “Reformed Thought on the Extent of the Atonement to 1618”, Westminster Theological Journal, 37, 1975, 137-138). Admitidamente, às vezes Calvino faz afirmações claras e diretas em apoio da expiação definida. Pode-se dizer que esta posição é “uma extensão lógica do pensamento de Calvino” (Peterson, “Calvin on Christ’s Saving Work”, em Theological Guide to Calvin’s Institutes, 247). Para este fim, Timothy George afirma que o ensino de Calvino sobre a extensão da expiação deve ser visto à luz de seus fortes conceitos sobre a predestinação:
“A predestinação é particular em que ela pertence a indivíduos, e não a grupos de pessoas. [...] Com respeito à expiação, isto significa que Cristo não morreu por todos, indiscriminadamente, mas somente pelos eleitos.” (George, Theology of the Reformers, 233)
John Murray escreve em termos similares:
“A eleição é fundamental no pensamento de Calvino, e a eleição implica diferenciação na fonte de todo o processo da salvação. A evidência indica que Calvino não diminui esta diferenciação no ponto da oferta expiatória de Cristo.” (John Murray, Review of Paul Van Burren, “Christi in Our Place”, Westminster Theological Journal, November 1959, 59; encontrado também em Collected Writings of John Murray, Vol. 4. Edinburgh: Banner of Truth, 1976-82, 313)
Nas Institutas, Calvino escreve:
“A doutrina da salvação, sobre a qual lemos que é separada somente para os filhos da Igreja, é mal usada quando é representada como eficazmente disponível a todos.” (Calvin, Institutes of the Christian Religion, 3.22.10)
Esta é uma afirmação de expiação limitada. Em outro lugar, o Reformador mantinha que Cristo não ofereceu um sacrifício pelos que morrem na incredulidade. Com linguagem inequívoca, ele escreve:
“Eu gostaria de saber como os perversos podem comer a carne de Cristo, a qual não foi crucificada por eles, e como podem beber o sangue que não foi derramado para expiar seus pecados.” (John Calvin, Calvin: Theological Treatises, ed. J. K. S. Reid. Louisville: Westminster John Knox, 2000, 285)
Com estas palavras, Calvino asseverou contundentemente que Cristo não morreu pelos não eleitos, mas exclusivamente por aqueles que foram escolhidos pelo Pai e confiados a ele. Os comentários de Calvino em 1João 2.2 são particularmente importantes para este ponto. Este versículo reza:
“E ele [Cristo] é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos próprios, mas ainda pelos do mundo inteiro.” Ao analisar este versículo, Calvino foca bem a sentença “e não somente pelos nossos próprios”, explicando: “Ele [João] adicionou isto à maneira de ampliação, a fim de que os fiéis se assegurassem de que a expiação feita por Cristo se estende a tantos quantos pela fé abraçam o evangelho. Aqui é possível que se suscite a seguinte indagação: como os pecados do mundo inteiro foram expiados? Passo por alto as tagarelices dos fanáticos que sob este pretexto estendem a salvação a todos os réprobos, e portanto ao próprio Satanás. Algo tão monstruoso nem merece refutação. Aqueles que buscam evitar este absurdo costumam dizer que Cristo sofreu suficientemente pelo mundo inteiro, mas eficientemente só pelos eleitos. Esta solução comumente tem prevalecido nas escolas. Ainda que, pois, eu admita que o que se tem dito seja verdadeiro, contudo nego que seja próprio a esta passagem; pois o desígnio de João não era senão tornar este benefício comum a toda a igreja. Por isso, sob a palavra todo ou inteiro ele não inclui os réprobos, mas designa aqueles que então viviam dispersos através das várias partes do mundo. Pois aqui se faz realmente evidente, como é próprio, que a graça de Cristo é a única verdadeira salvação do mundo.” (Calvin, Commentaries on the Catholic Epistles, 172-173. 1 John 2.2)
Abordando os comentários de Calvino sobre esta passagem central, George observa:
“Enquanto às vezes se diz que Calvino negou a doutrina da expiação limitada, esta passagem [1Jo 2.2], entre outras, é prova do contrário: Sob a palavra ‘todo’ [inteiro] ele não inclui os réprobos.” (George, Theology of the Reformers, 222n112)
Murray escreve:
“Esta é uma afirmação explícita para o efeito de que os réprobos não estão inclusos na propiciação, e que ‘o mundo inteiro’ se refere a todos, por todo o mundo, que são participantes da salvação, sem distinção de raça, ou clima(clime), ou tempo.” (John Murray, “Calvin on the Extent of the Atonement”, Banner of Truth Magazine, Issue 234, March 1983, 21). E agrega: “[Calvino] está simplesmente reconhecendo o que cada exegeta deveria entender: que um termo universal nem sempre implica universalismo distributivo. Seguramente, é significativo que, se houvesse alguns textos que dessem a Calvino a oportunidade de apresentar a doutrina da expiação universal seriam estas: 1João 2.2; 1Timóteo 2.4, 6. Mas está em conexão com estas passagens que ele é cuidadoso em distinguir entre universalismo distributivo e universalismo étnico. [...] Visto que Calvino é explícito nestes pontos sobre a distinção entre indivíduos considerados em termos distributivos e indivíduos sem distinção de raça ou classe, somos não só justificados, mas exige-se que levemos em conta essa distinção em inúmeras outras passagens onde, em conexão com o sacrifício vicário de Cristo, ele usa termos universais. Devemos ter ainda em mente que, sendo Calvino zeloso pela proclamação do evangelho da reconciliação a todos sem exceção, isso de modo algum não é incompatível com sua exclusão dos réprobos do escopo da expiação operada por Cristo. De fato Calvino era cônscio da tensão que surge para nós quando consideramos que o evangelho deve ser proclamado a todos sem exceção e, no entanto, que Deus predestinou secretamente os réprobos para a morte. Mas esta tensão não é aquela entre a expiação universal e o grau de reprovação. É a tensão entre a vontade secreta do propósito e a vontade que nos é proclamada, uma tensão com que Calvino lida em grande medida em vários lugares.” (Murray, “Calvin on the Extent of the Atonement”, Banner of Truth Magazine, 22; encontrado também em Collected Writings of John Murray, Vol. 4, 313)
A questão de Murray é clara: Calvino não sustentou que o sacrifício de Cristo foi por “todos” no sentido de cada pessoa, inclusive os réprobos. Ao contrário, a morte de Cristo foi especificamente por todos os seus eleitos, ou todos os tipos ou classes de pessoas (1Tm 2.4; Tt 2.11). (Toger Nicole, “John Calvin’s View of the Extent of the Atonement”, em Standing Forth: Collected Writings of Roger Nicole. Ross-shire, Scotland: Mentor, 2002, 298-300. Numerosos comentários de Calvino endossam a conclusão de Murray). Em seu comentário sobre 1Timóteo 2.5, Calvino escreve:
“O termo universal todos deve referir-se sempre a classes de homens, e não a pessoas. É como se ele tivesse dito que não só judeus, mas também gentios, não só pessoas de classe humilde, mas também príncipes, foram redimidos pela morte de Cristo.” (John Calvin, Commentaries on the Epistles to Timothy, Titus, and Philemon, trans. By Rev. William Pringle. Grand Rapids: Baker, 2003, 57. 1Tim 2.5). Comentando 1Timóteo 2.4, ele escreve: “Não há no mundo povo e classe que esteja excluída da salvação; porque Deus deseja que o evangelho seja proclamado a todos sem exceção. [...] O presente discurso se relaciona com classes de homens, e não com pessoas individuais.” (Calvin, Commentaries on the Epistles to Timothy, Titus, and Philemon, 54-55. 1Tim 2.4). Ele prossegue dizendo: À luz deste fato, fica em evidência a pueril ilusão daqueles que creem que esta passagem contradiz a predestinação. Argumentam: “Se Deus quer que todos os homens, sem distinção alguma, sejam salvos, então não pode ser verdade que, mediante seu eterno conselho, alguns tenham sido predestinados para a salvação e outros, para a perdição.” Poderia haver alguma base para tal argumento, se nesta passagem Paulo estivesse preocupado com indivíduos; e mesmo que assim fosse, ainda teríamos uma boa resposta. Porque, ainda que a vontade de Deus não deva ser julgada à luz de seus decretos secretos, que ele no-los revela por meio de sinais externos, contudo não significa que ele não haja determinado secretamente, em seu íntimo, o que se propõe fazer com cada pessoa individualmente (Calvin, Commentaries on the Epistles to Timothy, Titus, and Philemon, 54. 1Tim 2.4) redenção indefinida, hipotética e geral; (2) ele enfatizava reiteradamente que a eleição divina é final; portanto, assumir que ele mantinha uma redenção universal, a qual seria mais inclusiva do que a extensão da eleição divina, seria inconsistente; (3) ele cria que a cruz granjeou para os eleitos arrependimento e fé; isto significa que a morte de Jesus não fez os pecadores meramente salváveis, mas realmente salvou os eleitos; (4) às vezes ele colocava lado a lado os benefícios que vêm somente aos eleitos com a referência à intenção da morte de Cristo (Rm 4.25); nisto, Calvino usava reiteradamente “nós” quando se reportava aos eleitos e redimidos; (5) ele uniu estreitamente a obra sacerdotal e intercessória de Cristo na cruz com sua obra atual e intercessória no céu (Jo 17.9); o Reformador alegava que ambas as intercessões são dirigidas ao mesmo grupo, a saber, os eleitos; e (6) às vezes ele via textos geralmente tomados no sentido de intenção salvífica e universal de Deus como sendo de natureza particular e limitada (Ez 18.32; Jo 3.16; 2Pe 3.9). (Nicole, “John Calvin’s View of the Extent of the Atonement”, em Standing Forth, 283-312). Além do mais, Nicole escreve: (7) Calvino dizia que expressões universais em conexão com a expiação se destinavam a pôr ênfase especial na vocação indiscriminada do evangelho (2Pe 3.9); (8) Calvino enfatizava que muitas passagens ensinam diretamente que Cristo veio salvar seu povo (Mt 1.21), suas ovelhas (Jo 10.15), sua igreja (At 20.28; Ef 5.23-26) e “nós” (Tt 2.14); também entendia a extensão particular da cruz como ensinada em João 11.52 e Hebreus 2.9; (9) Calvino afirmava que os descrentes que observam a Ceia do Senhor não devem ter certeza de que Cristo morreu por eles; (10) ele enfatizava que a Escritura aborda a expiação como uma realização que realmente muda a relação entre Deus e os pecadores; a cruz não fornece uma mera benção potencial que é ineficaz, dependendo de algo que o pecador deve fazer; (11) Calvino não teria ignorado o fato de que, se a expiação é universal, então ninguém será punido no inferno; (12) ele enfatizava a unidade do propósito salvífico entre o Pai, o Filho e o Espírito, enquanto uma expiação universal divide as pessoas da Trindade em seus esforços salvíficos; (13) contemporâneos reformados de Calvino, tais como Pedro Mártir Vermigli, Beza e William Ames, ensinaram claramente a redenção particular, mas nunca tiveram a consciência de diferir de Calvino, nem Calvino deles. (Nicole, “John Calvin’s View of the Extent of the Atonement”, em Standing Forth, 283-312). Em adição, Nicole observa que Calvino entendia as passagens que contêm “todos” como uma referência, como já se notou, a todos os tipos ou classes de pessoas (1Tm 2.4; Tt 2.11). (Nicole, “John Calvin’s View of the Extent of the Atonement”, em Standing Forth, 298-300). Ele observa ainda que Calvino cria que muitas passagens que contêm “mundo” transcendem o Israel nacional e devem ser vistas como que incluindo os gentios eleitos. Jo 1.29; 1Jo 2.2. (Nicole, “John Calvin’s View of the Extent of the Atonement”, em Standing Forth, 298-300). Quando todas estas citações e argumentos forem considerados, é razoável concluir que Calvino mantinha a expiação limitada. Esta posição havia de ser definida e desenvolvida mais cuidadosamente por seu sucessor, Beza, e pelo Sínodo de Dort e a Assembleia de Westminster.
(LAWSON, Steven J. Pilares da Graça - Longa Linha de Vultos Piedosos, volume II. Traduzido por Valter Graciano Martins. Publicado pela editora Fiel, SP - 2013)