Eles voluntariamente ignoram isto, que pela palavra de Deus já desde a antiguidade existiram os céus, e a terra, que foi tirada da água e no meio da água subsiste. Pelas quais coisas pereceu o mundo de então, coberto com as águas do dilúvio, Mas os céus e a terra que agora existem pela mesma palavra se reservam como tesouro, e se guardam para o fogo, até o dia do juízo, e da perdição dos homens ímpios. Mas, amados, não ignoreis uma coisa, que um dia para o Senhor é como mil anos, e mil anos como um dia. O Senhor não retarda a sua promessa, ainda que alguns a têm por tardia; mas é longânimo para conosco, não querendo que alguns se percam, senão que todos venham a arrepender-se. Mas o dia do Senhor virá como o ladrão de noite; no qual os céus passarão com grande estrondo, e os elementos, ardendo, se desfarão, e a terra, e as obras que nela há, se queimarão. Havendo, pois, de perecer todas estas coisas, que pessoas vos convém ser em santo trato, e piedade, Aguardando, e apressando-vos para a vinda do dia de Deus, em que os céus, em fogo se desfarão, e os elementos, ardendo, se fundirão? Mas nós, segundo a sua promessa, aguardamos novos céus e nova terra, em que habita a justiça. (2 Pedro 3:5-13)

O apóstolo faz uma distribuição do mundo em céus e terra, e diz que eles foram destruídos por meio de água, e pereceram. Sabemos que nem a estrutura nem a substância de nenhum dos dois foram destruídas, mas somente os homens que viviam na Terra; e o apóstolo nos fala (v. 7) dos céus e terra que existiram, e foram destruídos pela água, distinguindo dos céus e terra que agora existem, e serão consumidos pelo fogo; contudo, quanto à estrutura visível do céu e da terra era a mesma antes do dilúvio como nos tempos do apóstolo, e permanece até agora; porém, é certo que os céus e a terra, dos quais o apóstolo fala, seriam destruídos e consumidos pelo fogo naquela geração. Portanto, para esclarecer um pouco o nosso fundamento, devemos considerar o que quis dizer o apóstolo com céus e terra nesses dois versículos. 1. É seguro que o que o apóstolo quer dizer com “o mundo”, com seus céus e terra (v. 5, 6), que foram destruídos; o mesmo, ou algo similar, quer dizer com os céus e terra que seriam consumidos e destruídos pelo fogo (v. 7); do contrário, não haveria nenhuma coerência no discurso do apóstolo, nem tampouco algum tipo de argumento, mas uma mera falácia de palavras. 2. É certo que o dilúvio não destruiu o mundo, nem a estrutura do céus e terra, mas apenas os habitantes do mundo; e, portanto, a destruição por fogo a que se refere não é da substância do céus e terra, que não serão consumidos até o último dia, mas de pessoas ou homens que viviam no mundo. 3. Logo, devemos considerar em que sentido se diz dos homens que vivem no mundo que são o mundo, e os céus e terra dele. Insistirei apenas num exemplo para esse propósito entre os muitos que poderiam ser apresentados: Isaías 51:15,16. “Porque eu sou o SENHOR teu Deus, que agito o mar, de modo que bramem as suas ondas. O SENHOR dos Exércitos é o seu nome. E ponho as minhas palavras na tua boca, e te cubro com a sombra da minha mão; para plantar os céus, e para fundar a terra, e para dizer a Sião: Tu és o meu povo”. O tempo da obra aqui mencionada, de plantar os céus e lançar o fundamento da terra, foi quando Deus dividiu o mar (v. 15) e quando deu a lei (v. 16), e disse a Sião: “Tu és o meu povo”; isto é, quando tirou aos filhos de Israel do Egito e formou deles uma Igreja e Estado no deserto; então ele plantou os céus e lançou o fundamento da terra; isto é, produziu ordem, governo e beleza da confusão na qual se encontravam antes. Esse é o sentido de plantar os céus e lançar o fundamento da terra no mundo. E tanto é assim que quando se menciona a destruição de um Estado ou governo, aquela linguagem que parece falar do fim do mundo é usada. Por exemplo, Isaías 34:4: “E todo o exército dos céus se dissolverá, e os céus se enrolarão como um livro; e todo o seu exército cairá, como cai a folha da vide e como cai o figo da figueira”; essas são palavras que falam da destruição do Estado de Edom. O mesmo é afirmado também do Império Romano (Ap. 6:14), que os judeus constantemente afirmavam ser o significado de Edom nos profetas. E na profecia de nosso Salvador sobre a destruição de Jerusalém (Mt. 24:5), Ele usa expressões da mesma importância.

É evidente, portanto, que no idioma e maneira de falar profética, por céus e terra freqüentemente se entende o Estado civil e religioso e a combinação dos homens no mundo, e os homens dela. Assim, esse tipo de céus e terra é que foi destruído pelo dilúvio. 4. Sobre esta base, afirmo que os céus e terra aqui nesta profecia de Pedro, a vinda do Senhor, o dia do julgamento e perdição dos homens ímpios, mencionados na destruição daquele céu e terra, tudo isso, não têm referência ao último e final julgamento do mundo, mas à destruição e desolação que iria cair sobre a igreja e o Estado judaicos; e ofereço duas razões das muitas que poderiam ser usadas a partir do texto: (1) Porque, seja o que for mencionado aqui, deve ter influência peculiar sobre os homens daquela geração. Ele fala daquilo que tinha a ver com os escarnecedores profanos e com os escarnecidos, e de que, como judeus, alguns deles criam na fé, e outros se opunham. Ora, não havia naquela geração nenhuma preocupação particular, nem por aquele pecado, nem por aquelas zombarias, com relação ao dia do julgamento em geral; mas havia um alívio peculiar por um lado, e um temor peculiar pelo outro, que estava próxima a terrível destruição da nação judia; e, além disso, havia testemunho amplo tanto por um como pelo outro do poder e domínio do Senhor Jesus Cristo, que era aquilo que estava em questão entre eles. (2) Pedro lhes diz, após a destruição e julgamento dos quais fala nos versículos 7-13: “Nós, segundo a sua promessa, aguardamos novos céus e nova terra’, etc. Eles tinham uma esperança. Mas qual era essa promessa? Onde a encontramos? Bem, encontramo-la nas mesmas palavras e na mesma carta, Isaías 65:17: “Porque, eis que eu crio novos céus e nova terra; e não haverá mais lembrança das coisas passadas, nem mais se recordarão”. Agora, quando Deus criaria esse novos céus e nova terra, onde habita a justiça? Diz Pedro: “Será após a vinda do Senhor, depois do julgamento e destruição dos ímpios, que não obedecem ao evangelho, dos quais já tinha falado”. Mas agora é evidente, a partir da passagem de Isaías 66:21-22, que essa é uma profecia para os tempos do Evangelho somente: “E também deles tomarei a alguns para sacerdotes e para levitas, diz o SENHOR. Porque, como os novos céus, e a nova terra, que hei de fazer, estarão diante da minha face, diz o SENHOR, assim também há de estar a vossa posteridade e o vosso nome”; e que a plantação desses novos céus nada é senão a criação daquelas ordenanças do Evangelho que devem perdurar para sempre. O mesmo é expresso em Hebreus 12:26-28: “A voz do qual moveu então a terra, mas agora anunciou, dizendo: Ainda uma vez comoverei, não só a terra, senão também o céu. E esta palavra: Ainda uma vez, mostra a mudança das coisas móveis, como coisas feitas, para que as imóveis permaneçam. Por isso, tendo recebido um reino que não pode ser abalado, retenhamos a graça, pela qual sirvamos a Deus agradavelmente, com reverência e piedade”.

Sendo esse o desígnio da passagem, não insistirei mais no contexto, mas explicarei brevemente as palavras propostas, e me concentrarei na verdade contida nelas. Primeiro, há uma base para a inferência e exortação do apóstolo, vendo que todas essas coisas, a despeito de quão preciosas possam parecer, ou do valor que alguém possa colocar sobre elas, serão dissolvidas, isto é, destruídas; e isso na forma terrível e apavorante antes mencionada, num dia de julgamento, ira e vingança, por meio do fogo e espada; deixe que os outros zombem das admoestações da vinda de Cristo: Ele virá – não tardará; e então os céus e terra que Deus mesmo plantou, - o sol, a lua, e as estrelas do sistema e igreja judias – o velho mundo de adoração e adoradores, os que agora se opõem obstinadamente ao Senhor Jesus, devem ser dissolvidos e destruídos: sabemos que isso seria o fim dessas coisas, e ocorreria em breve. Não existe nenhuma constituição externa nem estrutura de coisas nos governos ou nações, que não esteja sujeita à destruição, e possa recebê-la, como forma de julgamento. Se alguém deseja que seja excluído, e isso ocorre em muitos casos, daquilo que o apóstolo fala em termos proféticos (porque ainda não era tempo de declarar abertamente a todos), pode apresentar sua solicitude.

Por: John Owen
Tradução: Felipe Sabino de Araújo Neto