E se eu tivesse feito isso? E se eu não tivesse feito aquilo? Fulano poderia ter evitado toda essa bagunça, e sicrano ao menos amenizado a situação.

Perguntas assim não cessam de vir à mente, quase involuntariamente, quando nos deparamos com um resultado desagradável. Seja tragédias, acidentes, desentendimentos ou problemas mais amenos, gastamos um bom tempo reavaliando como poderíamos (ou poderiam) ter agido. Às vezes essas reconstruções de um “passado alternativo” podem ser doentias. Em vez de aprendermos com a história, ou melhor, com a providência de Deus na história, e assim crescermos, ficamos inertes, simplesmente pensando numa solução à la “De volta para o futuro”.

Eu lutei conscientemente contra isso hoje.*

Marquei um almoço com amigos, para conhecer pessoalmente um amigo virtual. As coisas de cara já não saíram conforme planejado. Desencontros prorrogaram em meia hora o início de tudo. Será que seria tudo diferente, se nos encontrássemos antes? Após um almoço agradável, os demais amigos precisaram se ausentar. Tudo indicava que eu também iria, e cheguei a me despedir do meu amigo-outrora-virtual. Mas eu resolvi ficar.

Finalmente, quando decidi partir, sofri um acidente de moto uns 5 minutos depois. Um carro apareceu “do nada”, na contramão, e me fez literalmente voar, mesmo não tendo asas. Moto estourada, dores para todos os lados. Ali, fui tentado a pensar: por que não fui embora antes?

Interessantemente, conversara com meu amigo, há poucos minutos, sobre como Deus nos transforma enquanto o servimos, à medida que trabalhamos em prol do seu reino. Comentamos sobre amigos em comum, em especial pastores, que têm amadurecido enquanto servem aos santos. Sobretudo, comentei sobre minha própria experiência: como Deus tem tratado o meu coração, livrando-me de tolices e estultícias ao longo dos anos. Em especial desde que me tornei presbítero e assumi a tarefa difícil e deleitosa de pastorear o rebanho de Deus, que ele comprou com o seu próprio sangue (Atos 20.28).

Mas Deus não usa apenas o serviço para nos amadurecer e tratar os nossos pecados. Ali, prostrado no chão, aprendi mais sobre a vida, sobre eu mesmo e sobre Deus. Experimentei a destra da comunhão e a providência abrangente e exaustiva de Deus. Sim, Deus usa o nosso serviço no contexto da igreja para nos aperfeiçoar, mas o seu reino é muito mais amplo que a igreja. E a sua caixa de ferramentas possui instrumentos diversos, usados de maneira mui sábia e eficaz.

Eu estava seguindo a minha agenda. Dirigia-me ao hospital para um check-up do coração. Acabei em outro hospital, por outro motivo: averiguação de diversos traumas. Deus tinha uma agenda diferente para mim. Não uma agenda caprichosa, mas uma agenda segundo o seu plano.

Sim, Deus tem um plano e esse plano está em execução. Ele nos predestinou para sermos conformes a imagem do seu Filho. Esse é o seu plano supremo! Às vezes parece não haver progresso. Retornamos aos antigos padrões de comportamento. Murmuramos, caluniamos, negligenciamos os meios de graça, etc. Mas mesmo as frustrações fazem parte do plano. O plano é infalível e nem mesmo o nosso pecado impedirá a sua consumação. Deus já está, agora mesmo, fazendo-nos mais parecidos com Jesus. E tenha certeza que ele usará até acidente de moto para fazer isso. Louvado seja o seu nome!

No hospital, orei por pastores mais próximos a mim: Emilio, Matheus, Gustavo, Dilsilei, Alan Rennê e Marcone. Agradeci a Deus pois ele também está fazendo a sua boa obra neles, até completá-la no Dia de Cristo (Fp 1.6). Orei também pelos irmãos da minha igreja local que têm sofrido devido enfermidades e outros reveses. Eles também estão sendo trabalhados pelo grande e perfeito Artesão. Orei pelos meus irmãos que não conheço, espalhados por toda terra, sabendo que o Deus onisciente é onipotente os tem na palma de sua mão, e faz com que todas as coisas cooperem para o bem deles (Rm 8.28). Bendito seja o Senhor!

Sim, o motorista errou. Foi extremamente imprudente e negligente. Ele foi responsável pelo acidente. Mas Deus é soberano. Ele não permitiu esse acidente. Ele decretou! E isso para me fazer, hoje, mais parecido com o meu Salvador.

A soberania de Deus não é um conceito teológico abstrato. É uma verdade revelada pelo próprio Deus para nos consolar, confortar e encorajar enquanto peregrinamos nesta terra de sombras. Que amanhã todos os filhos de Deus estejam mais parecidos com Jesus. Essa é a minha oração. Essa é a vontade de Deus. Esse é o caminho que Deus predestinou para cada um dos seus eleitos. Amém!

Felipe Sabino de Araújo Neto
*28/05/2015.